domingo, julho 29, 2012

Carta ao PAI - Faciolince

       […] Enquanto o meu pai dava a sua aula, eu esperava por ele sentado à secretária a desenhar ou a escrever à máquina, fingindo que escrevia como ele, [...] Ao longe, Gilma Eusse, a secretária, olhava para mim, sorrindo com picardia. De que sorriria ela não sei. Tinha uma fotografia emoldurada do seu casamento na qual estava vestida de noiva a casar com o meu pai. Eu perguntava-lhe uma e outra vez por que é que tinha casado com o meu pai, e ela explicava-me, a sorrir, que tinha casado com um mexicano, o Iván Restrepo, por procuração, e que o meu pai tinha sido seu representante na igreja. […]
        […] nessas manhãs da minha infância, ela ajudava-me a pôr o papel no rolo da máquina de escrever. Eu não escrevia, mas já escrevia, e quando o meu pai saía das aulas mostrava-lhe o resultado.
       - Olha o que eu escrevi.
       Eram umas quantas linhas cheias de gatafunhos: […]
        - Muito bem! – dizia o meu pai com uma gargalhada de satisfação e felicitava-me com um grande beijo […]
         […] ele festejava, na minha escrita, até os gatafunhos sem sentido, o que me ensinou muito devagar a maneira como as letras representavam os sons, para que os meus erros iniciais não provocassem o riso. Eu aprendi, graças à paciência dele, todo o abecedário, os números e os sinais de pontuação na sua máquina de escrever. Talvez isso explique o facto de que, para mim, são os teclados – muito mais do que os lápis ou as canetas – que representam da maneira mais fidedigna a escrita. Essa maneira de ir afundando os sons, como num piano, convertendo as ideias em letras e em palavras, parecia-me, no início – e ainda hoje me continua  a parecer - uma da magias mais extraordinárias do mundo.
       Além do mais, por causa da admirável habilidade linguística que as mulheres têm, as minhas irmãs nunca me deixavam falar. Mal eu abria a boca para tentar dizer qualquer coisa, já elas a tinham dito, […] com mais graça e mais inteligência. Acho que tive de aprender a escrever para poder comunicar de vez em quando e, desde muito pequeno, enviava cartas ao meu pai, que as festejava como se fossem epístolas de Séneca ou obras-primas da literatura. […]
       Creio que o único motivo porque fui capaz de continuar a escrever todos estes anos […] é o facto de saber que o meu pai teria desfrutado mais do que ninguém com  a leitura destas páginas minhas que nunca pôde ler. Que não lerá nunca. É um dos paradoxos mais tristes da minha vida: quase tudo o que escrevi foi escrito para alguém que não me pode ler, e mesmo este livro não é mais do que uma carta a uma sombra.     

Héctor Abad Faciolince. Somos o esquecimento que seremos. (2006). Lisboa, Quetzal, 2009, pp. 22 - 25

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