sexta-feira, agosto 04, 2017

«Perder ou não perder (a frase)» - Ivone Mendes da Silva

[após a descontínua, a leitura contínua - esta manhã, alcançou-se a narrativa «n.º» 132]

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Como não quero ir trabalhar chinelante enfio os meus pés recém-chegados de um Verão à solta nuns sapatos mais aprumados. Um desespero com o calor que persiste e encosto-me à secretária e levanto um pé e depois passo para o outro e sento-me um pouco e torno a levantar-me. Continuo a aula e uma frase em pensamento atravessa pelo meio do que estou a dizer. Oh, caramba, agora? Deveria escrevê-la mas onde encontrar pretexto para parar e abrir um caderno e continuo com a dor nos pés [...] e a frase na cabeça. Empurro-a para segundo plano e hei-de retomá-la depois mas a frase tomada de uma estranha energia resiste um pouco. Pergunto-lhes se percebem bem o que estou a dizer. Que sim e eu afiro a qualidade do entendimento. Menos mal: ouviram o que eu disse e não a frase que empurrei para trás e que nada tinha que ver com o que lhes ensinava. Depois faz-se hora de sair. Penso que poderei escrever agora a frase mas quero sair. Beber água  e descalçar por uns minutos os sapatos. Puxo a frase para a frente e memorizo-a. Saio e vou fechar-me na casa de banho de pés descalços no mosaico fresco do chão. Respiro fundo. Subo as escadas e os pés a doerem de novo. Quando entro na sala dou-me conta de que perdi a frase. Tento puxá-la à memória mas desapareceu de vez. Sinto-me desertada.

Ivone Mendes da Silva, Dano e virtude, 2017 (Julho), Língua Morta, pp. 53, 54

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