domingo, março 08, 2026

«escrita zoológica» (ALA, por Paulo Faria)


[...]  Havia na tua escrita o Jardim Zoológico de Lisboa, que aparecia e reaparecia constantemente. O nosso pai levava-nos ao Jardim Zoológico com uma regularidade intrigante, como se fosse um ritual de descoberta do mundo, como se não houvesse mais nada para fazer. Talvez não houvesse mesmo mais nada para fazer. A minha infância ficou entranhada com o cheiro a estrume e a catinga do Jardim Zoológico, com o calor húmido e pastoso da Casa dos Répteis, com a imagem do elefante a mendigar moedas com a tromba molhada e a tocar o sino a troco de uma cenoura mirrada, oferecida por um guarda de uniforme coçado que, apercebo-me agora, devia passar ali o dia inteiro, naquela labuta melancólica. Esta recordação mescla-se com a recordação do meu pai a ler o trecho em que, num dos teus romances, tu descrevias este elefante e este guarda, e ambas as recordações se contaminam uma à outra e se tornam indissociáveis. A tua escrita era toda ela, aliás, um imenso jardim zoológico, povoada por uma selva infindável de comparações com animais. As pessoas, os objectos, as cidades, as ruas, os automóveis, tudo tu comparavas a este ou àquele animal, criando uma Arca de Noé caótica em que os bichos tivessem desatado a copular às cegas, furiosamente, sem olhar à espécie do parceiro, gerando monstros e quimeras com formas híbridas que depois invadiam o mundo dos teus romances. O meu pai, que chamava “camelo” e “vaca” a toda a gente, a toda a hora, sentia-se ali nas suas sete quintas.»

sexta-feira, março 06, 2026

«um bicho esquisito». A. Lobo Antunes

Susa Monteiro

Eu fui o filho que deu sempre mais problemas aos meus pais, ou seja o único que não parava de dar problemas aos meus pais. Era mau aluno

(os meus irmãos eram brilhantes)

não me interessava pelas aulas, não estudava, tinha sempre nota de mau comportamento, não falava às amigas da minha mãe que não me interessavam, as minhas notas eram miseráveis, não reprovei porque o meu avô tinha dois camaradas do Colégio Militar que eram professores no Camões e arranjavam maneira de eu receber, no último período, as classificações que precisava para não chumbar, de modo que acabei o secundário aos dezasseis anos sem nunca ter estudado. A minha mãe foi algumas vezes ao Camões e voltava sempre deprimida com o que lhe contavam de mim. Numa das ocasiões em que lá foi espreitou a minha turma pela janela e voltou aterrada porque eu me achava sentado ao contrário na carteira, a olhar para o tecto. Segundo ela a setora de Francês perguntou-lhe
– Como é que eu podia chumbar aqueles olhos azuis?
e a minha mãe chegou a casa capaz de estrangular-me, a repetir advérbios de modo que levou a minha infância a atirar-me à cara:
– Francamente
e recordo-me de a ouvir dizer ao meu pai, julgando que eu não estava na sala
– Se ao menos ele fosse estúpido eu ainda compreendia
comigo a sentir-me um bicho esquisito que passava o tempo a ler e a escrever e, nos intervalos, a fazer asneiras, como por exemplo usar as jarras de flores para fazer chichi, espalhando pela casa um cheiro horrível, às vezes difícil de localizar.  [...]

                  de «A gente os três», «Visão», de 01 de Novembro de 2018

quarta-feira, fevereiro 04, 2026

«Olho de Boi» (de «Consumo Obrigatório»)

 - V. C. designa como «Conto» cada «Etapa - Capítulo» deste Roteiro [um por Ano e por «Poiso Nocturno»...] +  ABG na 3.ª Pessoa Verbal = Duplicação do ...];- lidos os 2 finais, 2001, 2002, segue-se agora a «Ordem Cron.a» [vai-se na p. 38, final de «Colibri, Costa da Caparica, 1970»]

RCORTE(s) da p. 9:
     Desde os quatro anos, altura dos primeiros momentos da percepção do mundo e da sua incomensurável complexidade, tinha-se dado conta da sua falta de capacidade para a  imposição

          Virgílio Castelo, Consumo Obrigatório - Memórias de boîtes, discotecas, bares e afins..., 2026, p. 9

segunda-feira, janeiro 26, 2026

Trabalhar enquanto...

 - J. foi à Luz buscar R., após repetição daquele Exame de «Interiores» que implica Noite em Branco (1 mês para as Biópsias, agora..., que O Corpo ainda é o que sempre foi...);
- ligado à MicroMáq.a, «Muitos em Um», J. continuou a trabalhar no Elevador, pelos Corredores e depois no Carro, com «Parceiros» de várias nacionalidades...; um deles perdeu temporariamente a ligação e, quando «voltou», informou «que fora por circular num túnel sob o Tamisa....»
- «é assim, Boss, agora dá para trabalhar assim...»; R., «encolhido», registou, claro...; [grande autonomia, sim, enorme pressão, também...OU «não há Bela sem Senão»?]

quinta-feira, janeiro 01, 2026

«Máquina APN»

   - 8 : 30; «APN» (noite longa, a primeira de 26...; último desligar da MÁQ.a APN)

 - final de Qd.o; já alguns iam saindo, quando M. [de ano anterior] entrou, com um irmãozinho pela mão; veio devolver livro emprestado; estava «tão manchado», que R. «reclamou», com veemência;  [...], em [...];[...]