domingo, março 08, 2026

«escrita zoológica» (ALA, por Paulo Faria)


[...]  Havia na tua escrita o Jardim Zoológico de Lisboa, que aparecia e reaparecia constantemente. O nosso pai levava-nos ao Jardim Zoológico com uma regularidade intrigante, como se fosse um ritual de descoberta do mundo, como se não houvesse mais nada para fazer. Talvez não houvesse mesmo mais nada para fazer. A minha infância ficou entranhada com o cheiro a estrume e a catinga do Jardim Zoológico, com o calor húmido e pastoso da Casa dos Répteis, com a imagem do elefante a mendigar moedas com a tromba molhada e a tocar o sino a troco de uma cenoura mirrada, oferecida por um guarda de uniforme coçado que, apercebo-me agora, devia passar ali o dia inteiro, naquela labuta melancólica. Esta recordação mescla-se com a recordação do meu pai a ler o trecho em que, num dos teus romances, tu descrevias este elefante e este guarda, e ambas as recordações se contaminam uma à outra e se tornam indissociáveis. A tua escrita era toda ela, aliás, um imenso jardim zoológico, povoada por uma selva infindável de comparações com animais. As pessoas, os objectos, as cidades, as ruas, os automóveis, tudo tu comparavas a este ou àquele animal, criando uma Arca de Noé caótica em que os bichos tivessem desatado a copular às cegas, furiosamente, sem olhar à espécie do parceiro, gerando monstros e quimeras com formas híbridas que depois invadiam o mundo dos teus romances. O meu pai, que chamava “camelo” e “vaca” a toda a gente, a toda a hora, sentia-se ali nas suas sete quintas.»

Sem comentários:

Enviar um comentário

Nota: só um membro deste blogue pode publicar um comentário.