[...] Havia na tua escrita o Jardim Zoológico de Lisboa, que aparecia e reaparecia constantemente. O nosso pai levava-nos ao Jardim Zoológico com uma regularidade intrigante, como se fosse um ritual de descoberta do mundo, como se não houvesse mais nada para fazer. Talvez não houvesse mesmo mais nada para fazer. A minha infância ficou entranhada com o cheiro a estrume e a catinga do Jardim Zoológico, com o calor húmido e pastoso da Casa dos Répteis, com a imagem do elefante a mendigar moedas com a tromba molhada e a tocar o sino a troco de uma cenoura mirrada, oferecida por um guarda de uniforme coçado que, apercebo-me agora, devia passar ali o dia inteiro, naquela labuta melancólica. Esta recordação mescla-se com a recordação do meu pai a ler o trecho em que, num dos teus romances, tu descrevias este elefante e este guarda, e ambas as recordações se contaminam uma à outra e se tornam indissociáveis. A tua escrita era toda ela, aliás, um imenso jardim zoológico, povoada por uma selva infindável de comparações com animais. As pessoas, os objectos, as cidades, as ruas, os automóveis, tudo tu comparavas a este ou àquele animal, criando uma Arca de Noé caótica em que os bichos tivessem desatado a copular às cegas, furiosamente, sem olhar à espécie do parceiro, gerando monstros e quimeras com formas híbridas que depois invadiam o mundo dos teus romances. O meu pai, que chamava “camelo” e “vaca” a toda a gente, a toda a hora, sentia-se ali nas suas sete quintas.»
primeira pessoa
regressos futuros ao tempo feliz das «Ficções do Eu» (PM)
domingo, março 08, 2026
«escrita zoológica» (ALA, por Paulo Faria)
[...] Havia na tua escrita o Jardim Zoológico de Lisboa, que aparecia e reaparecia constantemente. O nosso pai levava-nos ao Jardim Zoológico com uma regularidade intrigante, como se fosse um ritual de descoberta do mundo, como se não houvesse mais nada para fazer. Talvez não houvesse mesmo mais nada para fazer. A minha infância ficou entranhada com o cheiro a estrume e a catinga do Jardim Zoológico, com o calor húmido e pastoso da Casa dos Répteis, com a imagem do elefante a mendigar moedas com a tromba molhada e a tocar o sino a troco de uma cenoura mirrada, oferecida por um guarda de uniforme coçado que, apercebo-me agora, devia passar ali o dia inteiro, naquela labuta melancólica. Esta recordação mescla-se com a recordação do meu pai a ler o trecho em que, num dos teus romances, tu descrevias este elefante e este guarda, e ambas as recordações se contaminam uma à outra e se tornam indissociáveis. A tua escrita era toda ela, aliás, um imenso jardim zoológico, povoada por uma selva infindável de comparações com animais. As pessoas, os objectos, as cidades, as ruas, os automóveis, tudo tu comparavas a este ou àquele animal, criando uma Arca de Noé caótica em que os bichos tivessem desatado a copular às cegas, furiosamente, sem olhar à espécie do parceiro, gerando monstros e quimeras com formas híbridas que depois invadiam o mundo dos teus romances. O meu pai, que chamava “camelo” e “vaca” a toda a gente, a toda a hora, sentia-se ali nas suas sete quintas.»
sexta-feira, março 06, 2026
«um bicho esquisito». A. Lobo Antunes
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| Susa Monteiro |
Eu fui o filho que deu sempre mais problemas aos meus pais, ou seja o único que não parava de dar problemas aos meus pais. Era mau aluno
(os meus irmãos eram brilhantes)
– Francamente
e recordo-me de a ouvir dizer ao meu pai, julgando que eu não estava na sala
– Se ao menos ele fosse estúpido eu ainda compreendia
comigo a sentir-me um bicho esquisito que passava o tempo a ler e a escrever e, nos intervalos, a fazer asneiras, como por exemplo usar as jarras de flores para fazer chichi, espalhando pela casa um cheiro horrível, às vezes difícil de localizar. [...]
quarta-feira, fevereiro 04, 2026
«Olho de Boi» (de «Consumo Obrigatório»)
RCORTE(s) da p. 9:
segunda-feira, janeiro 26, 2026
Trabalhar enquanto...
- ligado à MicroMáq.a, «Muitos em Um», J. continuou a trabalhar no Elevador, pelos Corredores e depois no Carro, com «Parceiros» de várias nacionalidades...; um deles perdeu temporariamente a ligação e, quando «voltou», informou «que fora por circular num túnel sob o Tamisa....»;
- «é assim, Boss, agora dá para trabalhar assim...»; R., «encolhido», registou, claro...; [grande autonomia, sim, enorme pressão, também...OU «não há Bela sem Senão»?]
quinta-feira, janeiro 01, 2026
«Máquina APN»
- 8 : 30; «APN» (noite longa, a primeira de 26...; último desligar da MÁQ.a APN)
sexta-feira, dezembro 19, 2025
«her Name was B»
- a partir de 23:10, de Concerto em Paris de Nick Cave - [«she had a little black book and my Name it was writen on every page»] - que repetidamente tem sido ouvido desde o regresso do Rugido...
domingo, agosto 31, 2025
«Máq.a APN»
- 5 20: «APN» (1.º desligar da MÁQ.a)
quinta-feira, agosto 14, 2025
Que Nome...
- não existindo ainda nem na FNC nem na BERT, houve que obter a obra de T. M. M. no SALD, na AFRONT; a VET funcionária, «disponível», teve a paciência de ouvir R. discorrer sobre, sobretudo, a LX...; localizado, na RTP-ARQ, o DOC de Diana Andringa, de 98;no mesmo END, ENTREV de 1958 + CLIP de Simpósio na Brown UNIV, de 81;
RECORTE(s):
segunda-feira, julho 21, 2025
Lista («Ex-AA»)
- na lista, pelo menos 3 «Ex-AA» [dois DIS, uma DOC...];
- artigo de hoje, no «DN», sobre A. dos R.
domingo, julho 13, 2025
«peutitá», «la petite est lá»
[do artigo de hoje no «Público»]
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| O visto para a família de Mireille foi passado em Toulouse, por Emile Gissot, sob ordens de Aristides de Sousa Mendes |
sábado, junho 28, 2025
«Trabalhos e paixões...» OU F. A. P. por M. A. V.
RECORTE(s)
[...] em 1993, o único romance de Fernando Assis Pacheco, Trabalhos e paixões de Benito Prada. A obra, que tem um dos arranques mais fortes da literatura portuguesa, entusiasmou-nos tanto, que eu logo prometi ao Fernando que, em Frankfurt, tentaria vender os direitos de tradução. Ele deu uma das suas habituais gargalhadas e respondeu-me: «Deixa-te disso. O único sítio onde eu quero ser traduzido é na Galiza...
[...] ele (Américo A. Areal) convenceu o editor Antón Mascato a traduzir a obra, prometendo-lhe que a imprimiria a um preço quase simbólico.
O Fernando ficou radiante - e mais radiante ainda quando Mascato o convidou a passar uns tempos na Galiza para trabalhar com o tradutor. Instalou-os em Vilagarcia de Arousa, no Hotel Balneario de Paco Feixó, à época um dos mais famosos chefs galegos. [...]
Quando a tradução foi publicada, em 1994, fizemos um périplo [...], para a promoção do livro. Mas à noite regressávamos sempre a Vilagarcia de Arousa. Aí, o poeta sentia-se em casa e permitia-se até, quando estava cansado da cozinha «moderna» de Paco Feixó, ir para a cozinha fazer ovos mexidos com chouriço. [...]
Manuel Alberto Valente, O outro lado dos livros - Memórias de um editor, 2025, pp. 36 - 37
sexta-feira, maio 16, 2025
A Menina que não gostava da «cauda do Y» ; Audre Lorde
[atingida a página 281 - de 426]
[..] Sentada à mesa da cozinha com a minha mãe, traçava as letras e identificava-as pelo nome. Ela não tardou a ensinar-me a dizer o alfabeto para a frente e para trás, como se fazia na ilha de Granada. Apesar de só ter estudado até ao sétimo ano, durante o seu último ano na escola de Mr. Taylor em Grenville, tinham-na encarregado de ensinar as primeiras letras às crianças da primeira classe. Contou-me histórias sobre a severidade deste professor enquanto me ensinava a escrever o meu nome em maiúsculas.
Como não gostava de ver a cauda do Y, em Audrey, pendurada abaixo da linha, esquecia-me sempre de a pôr, o que irritava a minha mãe. Aos quatro anos, eu adorava a regularidade de AUDRELORDE, mas lembrava-me de acrescentar o Y porque a minha mãe gostava e porque, como ela costumava sublinhar, tinha de ser assim porque era assim. Não era permitido qualquer desvio em relação ao que considerava correcto. [...]
segunda-feira, maio 12, 2025
«Quero Ler»; Audre Lorde
[..] Não ousei olhar para a minha mãe, com receio de que ela dissesse que não, por eu ser demasiado desobediente para histórias. Ainda perplexa com esta reviravolta súbita, subi para o banco que Mrs. Baker tinha puxado para mim, e dei-lhe toda a minha atenção. Era uma nova experiência, e sentia uma curiosidade insaciável.
Mrs. Baker leu Madeline e Horton Hatches the Egg - histórias em verso, com ilustrações enormes e lindíssimas, que vi graças aos meus óculos novos, presos à minha cabeça rebelde por uma fita preta elástica que ia de orelha a orelha. Também leu outro livro de histórias, sobre um urso chamado Herbert que devorou uma família inteira, uma pessoa de cada vez, começando pelos pais. No fim desta história, tinha-me conquistado para a leitura durante o resto da vida.
quinta-feira, abril 17, 2025
«uma trintona possuída» [De Paolis]
RECORTE daí:
Federica de Paolis (1971; -), Do lado da mãe (2024), do capítulo final, «RUA NEMORENSE, n.º 33, 1976» [...], pp. 228, 229
domingo, março 30, 2025
Viga (Vigarista); Rubens Paiva
- Seu vigarista, venha terminar o dever!
Riram muito da palavra «vigarista». Acho que a maioria não sabia o significado. Nem eu. Pelo tom, sacamos que era algo que se diz a alguém que quebra uma promessa e deixa os outros irritados. Eles ficaram repetindo, «Vigarista!», «Vigarista, Vigarista!». O apelido pegou. Além disso ela era sofisticada. Enquanto a maioria tinha apelidos simples, Teco, Neco, Caco, o meu vinha de uma palavra sofisticada, que enrolava na boca. Era a cara da minha mãe inspirar um apelido impronunciável. Com o tempo virou Viga.
Marcelo Rubens Paiva, Ainda estou aqui, p. 101
domingo, março 23, 2025
« As raparigas podem ser electricistas?» OU «ainda estou aqui» (Isabela Figueiredo)
A máquina de escrever do meu pai
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Esta é a máquina de escrever na qual escrevi meus primeiros textos literários, trabalhos de faculdade, meu primeiro livro Conto É Como Quem Diz , artigos de jornal e trabalhos escolares como professora. Usei-a até o início dos anos 90, quando foi necessário migrar para um computador. Os textos que eu trazia do trabalho para terminar em casa eram em disquetes. Não valorizo a lembrança da minha relação com esta máquina, a que me narra. Ela é importante porque pertenceu ao meu pai. Veio dele para mim. Por isso, a guardo, assim como guardo a máquina de costura da minha mãe, ainda com os carretéis onde ela os colocava e a linha que ela enfiava em furos específicos, numa jornada que não consigo reconstruir, por isso não posso desmontá-la. Mas agora o cenário muda: é noite, tenho seis anos, e este texto está sendo datilografado pelo meu pai. Estou sentada no chão assistindo. Ainda não sei escrever. Rabisco. Meu pai chegou do trabalho. Jantamos. Ele falou comigo e com a minha mãe, e agora está sentado à secretária para escrever este texto só com os indicadores, mas rápido. Está calor. Está de calções, camisola interior e descalço, como eu. A minha mãe repreende-nos por estarmos descalços. É falta de educação. Não é próprio de gente civilizada. Entretanto, passa a ferro a camisa que ele vai usar amanhã. Este texto, que no parágrafo anterior passei para as mãos do meu pai, é um projecto de instalação eléctrica geral de um edifício de 12 andares. Ele vai entregá-lo à Direcção-Geral das Infra-estruturas. Também pode ser um orçamento. É um orçamento, sim. Tantos escudos para cabos, tantos para fusíveis, tantos para tomadas, lâmpadas, fichas e interruptores. X para mão-de-obra. Total de não sei quantos mil escudos. «As raparigas podem ser electricistas?», pergunto. Podem, mas não é comum. Ele nunca viu, mas não é proibido. Quando meu pai não está em casa, brinco com sua máquina de escrever imaginando que sou adulta, casada e empregada em um escritório. Imaginando um futuro. Não sei se um dia olharei para ele sem saber o que fazer com ele. Que o guardarei, assim como a máquina de costura da minha mãe, por razões imateriais. É minha infância. É tempo perdido. Alguém depois o venderá para o ferro-velho, para dar lugar às infâncias que virão, tão puras e únicas quanto a minha. Sem saber disso. Isso mesmo. Mas depois. Quando eu não estiver mais aqui, e perder o controle sobre a matéria. Ficarei com a estimativa que meu pai está registrando, agora mesmo, enquanto escrevo, agora, e que só eu posso ver. Não sei quantos volts, não sei quantos amperes. Pai, o que é um volt? Pai, o que é um ampere? Guardarei essa estimativa imaterial até o fim do fim dos tempos, que está muito longe. Suspeito que nem exista. Mas agora ainda estou aqui. ISABELA FIGUEIREDO Máquina de escrever Rheinmetall, Lourenço Marques |
sábado, fevereiro 15, 2025
32... E «a próxima será na Margem Sul»
- cerca de 32 anos depois, por iniciativa de E. F. e H. T. V., cerca de 12 à Mesa - tudo facilitado pelo «Grupo no WPP.s...» - ; só R. levou os livros de L. F. P., logo, obteve as naturais Dedicatórias (como I. F. previamente comunicara a ausência, não levou os desta...) ; com maioria da «margem Sul», inevitavelmente: «a próxima será na Margem Sul...»
quinta-feira, fevereiro 13, 2025
«X Æ A-XII» = NOME ? = «a Criança é quem mais ordena?»
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| Fotografar a Criança na Sala do Império é uma Tradição (Kennedy, Obama...); à esquina da Mesa, com o «Dedo a Limpar a Sala», passa a ser a mais...; Kevin Lamarque / REUTERS; do «Público», de hoje |
sábado, fevereiro 08, 2025
Maria Teresa Horta
«Autobiografia», 2005, da Série publicada nas últimas páginas do «JL» - recolocada
[a Infância e a avó Camila, sempre... ]
EXCERTO:
quinta-feira, dezembro 19, 2024
«a verdadeira S.» [visita da]
- àquela que, em tempos, «classificou» estas Casas de ESQZ.as, mostrou-se os endereços das mesmas, e algumas «particularidades» - [sem «abusar», que isto é tudo para exclusivo prazer pessoal, claro];
- pois é
quinta-feira, dezembro 05, 2024
L. C., neta de L. C.
- pelas 15 e 40, a caminho de «operação especial pedestre» [marcada para as 16, com a dona M., colaboradora de A. Dom.os., 60...]...
- ao fundo da Alameda; estava sentada, «rente ao chão», no «rebordo» do respiradouro do Parque de Estacionamento...; imediatamente reconhecida, de TEX., de há cerca de 7 anos (em casa confirmada no «Bloco G», de 16 - 17); só agora se identificou como «neta de um poeta» [afinal L. C....]...; traçou um percurso de vários «cursos curtos ou rápidos», em áreas diversas, e de experiências profissionais também diversas...; do lado de R., falou-se de Ruben A. (tb. por causa do avô L. C. ...), e de Ana HTy...; well...
segunda-feira, novembro 25, 2024
Futebol na Montra (de «Bambino a Roma»)
[rapidamente lido, irá provavelmente para a «Mesa das Trocas»...]; não foi; colocado numa EST. do CORR, «Secção C. B»...
segunda-feira, novembro 18, 2024
Camões
- 6 e 50, último acordar, desligar da «Máq. APN»
- Quadrado, ainda em tempos de Ardósia e Giz... Sessão de introdução à Lírica Camoniana. Desinteresse total, nem a «Leonor» dita de Cor os espicaçou; em vão tenta comentar o Soneto de Cor transcrito na Ardósia...; vão saindo; a seis minutos do fim, restam 3 ou 4, de pé, tentando «conduzir a conversa para ouras bandas»...
quarta-feira, novembro 13, 2024
Retrato (Federica de Paolis)
[alcançada a p. 205, de 232]
RECORTE(s): [ver primeiro o da Entrada «Seguinte - Abaixo»]
Federica de Paolis (1971; -), Do lado da mãe (2024), pp. 101 - 102
terça-feira, novembro 12, 2024
«Aquela escola era um oásis...»; Federica de Paolis
[alcançada a p. 123]
RECORTE(s):
[...]
No bolso, para além da pílula, os Marlboro Suave (...) e os laxativos, agora tinha dois lápis e um afia, o mundo, finalmente, abria-me as suas portas. Não havia competição, autoridade ou felicidade a conquistar-se. Aquela escola era um oásis de retardados, grafites e borracha artística. Acima de tudo, o que valia era o olhar. O mundo do desenho coincidia com o literário, o que contava era o ponto de vista. Não as desinências, as regras, os casos. Apenas a subjectividade e a técnica. Eu gostava de desenhar, ainda que não fosse muito capaz; tinha vontade de aprender. [..]
Federica de Paolis (1971; -), Do lado da mãe (2024), pp. 100 - 101
domingo, setembro 29, 2024
Cardoso Pires e Sttau Monteiro, no «25» + «Mona Lisa»
- um «Ex-AA» de outras eras [... começa a trabalhar por volta dos 14 anos ao mesmo tempo que frequenta o curso de Desenhador, Gravador e Litógrafo, na Escola de Artes Decorativas António Arroio, em Lisboa, [...], guardou as fotografias que fez no tal dia durante 50 anos... [«P2», «Público]; mostra finalmente 50, diz que tem mais...
[...] «aquele retrato que José Carlos Nascimento considera a sua "Mona Lisa": um grande plano do rosto de um soldado que olha o fotógrafo com uma daquelas expressões que se tornam perenes, tanto por ser indecifrável quanto por nos desafiar a cada momento que olhamos para ela. Nesta parte, é Nascimento quem faz a pergunta (“Como é que se define essa expressão?”), ensaiando uma resposta logo a seguir: “Não é de resignação, mas também não é de pânico, de medo ou de ódio. Há serenidade e expectativa. Mas é uma expectativa serena, uma certa indiferença até. É um pouco inexpressivo quase. Não sei… não consigo descrever bem este olhar, sinceramente.”terça-feira, agosto 06, 2024
Madrid, Moscovo, Londres; «Hoje Caviar...»
- predominam as transcrições do Caderno da Mãe de C. P. (12, em 65) = representações «amáveis» do Quotidiano de família de Diplomata, pelas décadas de 60, 70, 80, com Receitas [...]
RECORTE (s) desse Caderno, da narrativa da Viagem de Barco para Madrid:
29 de novembro
Se durante todos estes dias não escrevi nada no meu diário de bordo, é porque metade do tempo jazi moribunda no camarote. À conta disso, depois da festa da passagem do Equador [...], perdi os concursos de shuffle board da Carmen com umas amigas italianas, os passos firmes e marinheiros do Gervasito no convés em plena tempestade, levado pela trela pelo Luís, e sobretudo a proclamação da Mercedes como campeã infantil de twist. Uma pena realmente, mas uma mãe não pode estar sempre no exercício dessa função; de vez em quando também nós adoecemos. [...]
quarta-feira, julho 31, 2024
Pesadelo com Rugido
- 5 00: «APN» (1.º desligar da MÁQ.a)
terça-feira, julho 16, 2024
De Luizinho a Luizão
Luiz Schwarcz, O ar que me falta - História de uma curta infância e de uma longa depressão, 2021, p. 59-60; 68
segunda-feira, julho 15, 2024
Mundial de 1966 + Metáfora(s) + «Magriço(s)»
- [em 66, tb. com 10 anos, D. assistiu aos jogos na sala de dentro da «Tasca do Pepe», na Esquina da C. da B. G...]
«Do último ano em que fui à Ma-Ru-Mi, me recordo de um episódio que teve um sabor agridoce para mim. Foi lá, já com dez anos, que ouvi pelo rádio a derrota do Brasil para Portugal, na Copa do Mundo de 1966. Lembro bem de todos amontoados para escutar o jogo, que marcou nossa eliminação da Copa de Inglaterra. O sentimento de impotência ao acompanhar uma derrota do seu time numa partida de futebol é sempre grande. No rádio essa sensação é ainda maior. Com vinte pessoas entre você e o aparelho, a coisa só piora. No entanto, em meio a tanta tristeza, fiquei fascinado pela narração, na qual Fiori Gigliotti, pródigo em metáforas, ministrava uma aula inicial sobre essa figura de linguagem. "Abrem-se as cortinas, torcida brasileira": assim ele começava a transmissão de todos os jogos. O gramado era um tapete ou tablado verde, o atacante português Eusébio uma pantera. [...]
![]() |
| Ilustração de Vasco Parracho, de 27 de Junho, no «FACE» |
A força dramática com que aquela derrota foi narrada nunca saiu da minha cabeça. E eu, vivenciando mais uma experiência triste de férias, escutava comovido Fiori Gigliotti falar no fim do jogo, "tudo é melancolia no lado brasileiro", "tudo é dor, senhoras e senhores", A partir de então fui muitas vezes a estádios com o radinho de pilha colado à orelha; assistia ao jogo por minha conta mas os ouvia na voz do locutor.
Luiz Schwarcz, O ar que me falta - História de uma curta infância e de uma longa depressão, 2021, p. 51
domingo, junho 23, 2024
76 - 77 + RUG., 17.º Dia
- 9 e 20; estava na ESPL. do RTA, com Óculos (muito) escuros e Chapéu de Abas (muito) largas; cumprimentou R., que retorquiu «que estava muito bem disfarçada»; MÉD.a, com 64, (do ano, 76-77, do «desistente» em 80), com Casa no Rugido. vem sendo «reencontrada» década após década (1.º ano de D., na Zmab, em 78...; até 84, Tenda e Mochila e...), contou que o Pai, na Zmab, se «libertava da DEP. ão Crónica»[... ]; Well...
terça-feira, junho 18, 2024
«Ao de leve no travão da vida», F. Assis Pacheco
- da »BiblioPenha», livro de 2017, que «compulsa» Crónicas Radiofónicas de 77-78;
RECORTE(s) da intitul.a «Ao de leve...»:
Ao fim da tarde, suado e de boca seca como um beduíno, ouvia a habitual reprimenda materna, depois a paterna, a lembrar a conta do sapateiro, e ia lavar-me à torneira, para não dar demasiado nas vistas. Televisão, não havia. Os putos desse século liam livros, e não apenas os sandokans, [...] Liam às vezes coisas substanciais, talvez um pouco à aventura, como me aconteceu com o Crime e Castigo de Dostoievski, que mastiguei aos 12 anos. [...]
Fernando Assis Pacheco, tenho cinco minutos para contar uma história, 2017, pp. 30-31
[sublinhados acrescentados]
A Crónica das pp. 19 a 24, «Sou neto...», na RTP Arquivo;
domingo, junho 09, 2024
Retrato Vermelho + «Retrato, vós não sois meu»
- «pelos 500 anos», artigo do Ípsilon, de Raquel Her.es da Silva, sobre os retratos de Camões [..]
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Retrato de Luís de Camões executado a sanguínea por Luís de Resende no século XIX, a partir de original de Fernão Gomes, 2.ª metade do sec. XVI |
Retrataram-vos mui mal;
Que, a serdes meu natural,
Fôreis mofino como eu.
Inda que em vós a arte vença
O que o natural tem dado,
Não fostes bem retratado,
Que há em vós mais diferença
Que do vivo ao pintado.
Se o lugar se considera
Do alto estado que vos deu
A sorte, que eu mais quisera;
Se é que eu sou quem de antes era,
Retrato, vós não sois meu.
(…)
sexta-feira, maio 31, 2024
«não acaba mais esta tarantela» (J. Pinharanda, «Diário do Confinamento»)
PARIS. 18.03.020
exigimos que o dia e a noite se resolvam a partir de um labirinto de links gratuitos; continuam a oferecer-nos necessidades de que não suspeitávamos; continuamos sem tempo nem lugar para parar. não acaba mais esta tarantela.
sábado, maio 18, 2024
Auto-retrato? (Júlia Ventura, 75-83)
domingo, maio 12, 2024
B. D.
terça-feira, abril 09, 2024
segunda-feira, abril 01, 2024
Clarice e Andréa OU «cuidado com as reticências»
- atingida a p. 360 (final da I Parte) da Biografia de C. L., por Teresa Montero [da BiblioPenha]; [a de B. Mozer, de 2009, «aguarda» na Est.e do Q.o de J....]
RECORTE(S):
[...] comoveu-se com o pedido e decidiu que a partir daquele momento não seria psicanalista, mas amigo de Clarice. [...] Nesse período, Clarice afeiçoou-se à filha de Azulay, Andréa. A menina tinha 10 anos e gostava muito de escrever. As suas cartas carinhosas comoviam Clarice, que lhe dizia que ela já era uma escritora, mas fizesse de conta que não era. [...] Nas cartas, Clarice fazia questão de lhe dar dicas de como viver e escrever. E enumerava uma série delas: não descurar a pontuação, pois ela é a respiração da frase; não abusar de vírgulas, cuidado com as reticências; o ponto e vírgula é um osso atravessado na garganta. E completava: »Agora esqueça tudo o que eu disse» [...]
Teresa Montero, À procura da própria coisa - uma Biografia de Clarice Lispector, 2022, pp. 332, 333
domingo, março 17, 2024
Pessoa e o(s) Desporto(s) + «A desobediente»
- Artigo do «Público», sobre o recente Colóquio na GULB.; lido no «28», a observar os TURIS «desenfarpelados» pela «onda primaveril de calor de Verão»; as referências feitas permitem elaborar uma Lista de Biografias a Ler...;
- na BERT., alcançada a p. 73 de «A desobediente»...; a 21, na FNC, p. 100 - até aí, Representações da Infância...; P. Reis, na SIC
RECORTE:2
domingo, março 03, 2024
2 em 1
- já passa da meia noite, com o Serviço a terminar, quando entram vários grupos, «animados», mas não para fazer grande despesa...; como sempre, J. V. (o «Mestre de CERIM.a») recebe-os calorosamente; quanto ao mau humor de quem irá «perder barcos» e chegar muito mais tarde a Casa...;
- 7 e 10: acorda num 2.º qd.o de um Qd.o de D. de P., no momento em que, na presença de uma Mestre de Materiais, se «ordena» o total desligar dos «telelés», designando-os como «maquinetas fascist.es» e outras expressões «mimosas»...
quarta-feira, fevereiro 28, 2024
«O homem que lia as paredes» - Lucia Berlin (A Casa, as casas)
- de 2019, mas vindo agora da FNC (30%...); alcançada a p. 81 destas evocações dos «29 primeiros anos de Vida de L. B.» (livro final, deixado incompleto,- 94 pp. - «em 1965» + «Cartas Escolhidas») OU ABG - ROTEIRO pela(s) CASA(s) [...]; 33 delas listadas entre as pp. 93 e 97;
RECORTE(s):
Era uma longa subida, por um carreiro que marcámos no primeiro dia. Ele deixou-me fazer golpes nos troncos; a seiva mantém-se pungente na minha memória. Aninhada na orla do prado luxuriante verde-vivo, ficava a casa de madeira de Johnson. Na verdade, era uma cabana tosca, por pintar, com janelas que pareciam olhos e uma porta como um sorriso apalermado e torto. Ervas altas e flores silvestres cobriam o telhado como um chapéu festivo. [...]
[...] Eu arrancava meticulosamente as páginas das revistas e colava-as nas paredes com farinha e cola de água, com muito cuidado para não molhar nenhuma parte do texto. A ideia era fazer uma montagem cerrada das páginas em toda a casa, do chão ao tecto. E, nos dias escuros de Inverno, Johnson leria as paredes. [...]
terça-feira, fevereiro 27, 2024
Zmab sob Betão
- 6 e 30: Máquina «APN» (1.º «desligar»)
- Ida à Zmab., de R., de autocarro, com «residente» - que talvez pudesse vir a «ajudar» no COND. - fez Visita Guiada por um Labirinto de Torres em construção - vista do lado do mar, em «frente compacta»; R. esqueceu a chave do Palácio, logo não o pôde mostrar à referida Figura...; o estado da parede exterior, a precisar de urgente MANUT., deixou-o «aturdido»; como dizer isso à General, após o regresso?
quarta-feira, fevereiro 21, 2024
Mourão-Ferreira
- R. esperou que M. J. C. reclamasse (2 Xs) «que ainda não lhe enviara os prometidos textos» - ficara na «Letra G». no ano passado.
Com [o envio] dos textos de Mourão-Ferreira, a seguinte Nota:
No Natal de 86 [D. no seu 1.º ano em Estudos Portugueses], no «Copo de 3», efémero Poiso (Estaminet) numa esquina da Praça das Flores (com a Rua Marcos Portugal?), D. «oficiou» um jantar de D. com alunos seus - um amor feliz já levava alguns meses de sucesso e de vendas - ; à saída, debaixo do braço, um (tosco) embrulho com um Bolo Rei [era público que o adorava em «torradas»...]
domingo, fevereiro 11, 2024
«um homem pequeno», Isabela Figueiredo
. Excerto da Crónica ABG, de hoje, «A importância do Não», de I. F. (I. A. S., como Nome Civil, 86-87, 89-90, Nova), no «Público»:
[...] Situo-me em 1976. Tenho 14 anos. É um domingo de Inverno, final de tarde. Estou em Alcobaça, em casa da minha prima M., onde talvez tenha ido passar o fim de semana para ajudar a tomar conta das crianças. Temos 15 anos de diferença, mas falamos como irmãs. A minha prima é alvo de violência física e psicológica por parte do marido, um homem pequeno, de maus instintos, que já lhe batia antes do casamento. Bateu-lhe durante a gravidez do primeiro filho. A lista de violência era longa, complexa em perversidade e diária, por nenhum motivo. Porque a persiana deveria estar fechada, porque a toalha da mesa tinha uma nódoa de sumo, porque chegou bêbedo. Ela temia-o, naturalmente. Observo e reconheço a violência que causa a demolição de qualquer ideia de família, mas não tenho medo dele. Desprezo-o. [...]
quinta-feira, novembro 23, 2023
Listas Mecânicas
segunda-feira, novembro 06, 2023
A primeira aula.
sábado, outubro 28, 2023
Quadrados, sempre
quinta-feira, outubro 19, 2023
a Menina «que andava a pensar muito em»
- quando, de longe a longe, (re)encontra um(a) «Ex-AA» na rua, o mais frequente é enfatizar que «não se lembra...»; pois, se «terão sido cerca de 3000...»;
- J. B. é a que mais tem «acompanhado», pelas obras e não só...; lembra-se quando (em 9798 ?), «referia os treinos às 6 da manhã, em BEL., e o(s) treinador(es) RUSSO (s)» e também da sua «troca de pista» (p. 37) (...);
- RECORTE do seu mais recente livro:
[...] «No cúmulo das minhas dificuldades para conseguir manter o ritmo e continuar na equipa, pedi para lhe falar, àquele colosso de dois metros de altura e muitos palmos de largo. Abri a boca e consegui apenas dizer «que andava a pensar muito em» sem chegar a especificar no quê. Ele interrompeu-me. Disse uma frase que me gelou, num sotaque soviético carregado: «Nadador não pensa, nadador nada». No minuto seguinte eu estava dentro de água, soavam apitos, sucediam-se tarefas. [...]»
Joana Bértholo, O meu treinador - e outras vivências do desporto de alto rendimento., F. F. M. dos Santos, 2023, pp. 24-25
[sobre este, Entrevista a 7 de Dezembro: AQUI]
quarta-feira, outubro 04, 2023
«a Menina que roubou o Nome da Mãe» Goliarda (Iuzza) (Maria) (Sapienza)
[...]
terça-feira, outubro 03, 2023
«A medida das carências: uma imagem: [...] bombons cor-de-rosa»
[Outro Recorte da Leitura das semanas de 18 a 30 de SET.]
segunda-feira, outubro 02, 2023
«Era preciso viver, apesar de tudo»
[Outro Recorte da Leitura das semanas de 18 a 30 de SET.]
Ao domingo encerravam o comércio, passeavam pelos bosques e faziam piqueniques com pudim sem ovos. Ele levava-me às cavalitas, cantando e assobiando. Durante os alertas, escondíamo-nos debaixo do bilhar do café, com a cadela. Convictos de que «era o destino». Por ocasião da Libertação, ele ensinou-me a cantar A Marselhesa, acrescentando no final «tas de cochons» para rimar com «sillon»- Assim como as pessoas em volta, estava muito contente. Quando ouvíamos um avião, levava-me à rua pela mão e mandava-me olhar para o céu, o pássaro: a guerra tinha terminado.»
sexta-feira, setembro 15, 2023
«Lá em casa, só o gato não foi preso» OU «de quem é o 25»? OU «Cardoso Pires nunca escreveu O Delfim»
- no Ìpsilon, a cronista apresnta várias evocações AUTOB.as, até chegar ao cerne da Crónica «Cardoso Pires nunca escreveu O Delfim»: uma das «dispara(ta)das» frases do «Rei dos Afectos» [...]
RECORTE inicial:
Não é a primeira vez que o digo. Lá em casa foi tudo preso pelo menos uma vez. Escapou o gato chamado Pompidou. Reconheça-se: um belíssimo nome para gato. A escolha resultou da vitória de Georges Pompidou nas eleições presidenciais francesas de 1969. [...] Escapou o gato e escapei eu graças à minha proverbial mania de descumprir horários.
A reunião dos estudantes de Liceu estava marcada para Lisboa no Instituto Superior de Economia (hoje ISEG). Sem aviso prévio, e ironicamente por razões de segurança, foi mudada para a Faculdade de Medicina. Ora tendo eu já chegado atrasada a Económicas, muito mais atrasada cheguei ao Hospital de Santa Maria. Resultado: quando cheguei a Santa Maria já tinha seguido tudo de ramona para o Governo Civil. E foi assim que a 16 de Dezembro de 1973, desistindo de continuar a calcorrear a capital atrás da PIDE e para mais ao domingo, ilesa, apanhei o comboio e fui para casa. Confirmo: era domingo. [...]
quinta-feira, setembro 14, 2023
«Então, como é estar L.?»
- já há muitos anos, muito antes de uma das Qd.as lhe «disparar»: «ó M., já ninguém escreve em blogues!» (aí por 2015?), quando lhe perguntavam se «não usava Facebook», D. respondia que era «tooface for him» e «que se ficava pelo book» ..;
- veio a Pandemia e, precisando de consultar de véspera a Ementa do STP, lá se «inscreveu», só para isso...; em consequência, Eli «arrasou-o» e o primo D. M. telefonou, muitas décadas depois...;
- rendido à «vida social» que lhe resta..., R. passa amiúde pelo Palácio [evidentemente, já não «canta» pelos CORR.s...], a caminho do STP; e é inevitável; há sempre mais um(a) «invejoso(a)», a menos de cinco anos da situação de D. (R.) que lhe repete a pergunta indicada; logo, L. = livre;
- pois é... ; [soube que J. S. - «ex-bibliotecária», «sai na lista de Outubro...; efectivos, restam 6..., só uma «abaixo dos 60»...]
segunda-feira, agosto 28, 2023
«as armadilhas da autoficção»
Não sendo «assinante», só é possível ler a parte inicial do artigo de José Mário Silva, ora no «Expresso»; assim, não se pode entender a referência «armadilhas da autoficção»
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| Li Erben/Getty Images |
Recorte(s): Logo no início deste livro assumidamente híbrido, algures entre ficção e autobiografia, a romancista Linn Ullmann deixa um aviso: “Se existisse um telescópio que pudéssemos apontar para o passado, eu poderia dizer: olha, aqui estamos nós, foi assim que aconteceu.” O “nós” é uma “constelação” familiar que não chegou propriamente a existir: “Eu era filha dele e filha dela, mas não era filha deles, nunca fomos três, e, quando vejo a pilha de fotografias que tenho à minha frente na mesa, não encontro uma única imagem em que apareçamos os três juntos. Ela e ele e eu.” [...] O “eu” que narra, e por vezes se desdobra num “ela” (sobretudo ao evocar a infância), é Linn, última a chegar entre os nove filhos de Bergman.









