- [principal leitura do regresso ao GALH e ao «Agosto em Lx» - onde «cheira mal»; narrativa autobiográfica centrada na representação da Infância; alcançada a p. 153. de 203]; artigo de Isabel Lucas, no «Ípsilon» - «Porquê? A incómoda rebelião de uma criança»
RECORTE(s):
Fui feliz naquela casa, sacudida de meia em meia hora pela passagem de um comboio de mercadorias, de um comboio de passageiros ou de um comboio expresso. Bastava perguntarem-me: sabia todos os horários, todos os destinos, e quando o frio ou a chuva ou a hora tardia me obrigavam a recolher-me, via passar os comboios através da janela. Os habitantes da povoação - não muito numerosos - habituaram-se a encontrar-me todos os dias à procura de ovos de avestruz ou a pastorear ovelhas, e perguntavam-me pelos horários dos comboios, [...] e mostraram-me que era preciso saber que tipo de comboio iria chegar para as [vias] abrir ou fechar, utilizando uma enorme máquina, em forma de leme [...] O meu maior sonho era ser capaz, sozinha, de pôr a máquina a funcionar, mas isso exigia a força de um homem muito grande e muito robusto, pelo que o meu querido tio encontrou um sistema para não me desiludir: um dos empregados da estação [...] movia a pesada correia de ferro pintada de preto, enquanto eu fazia girar o leme. Era o Santa Rosa e tornámo-nos inseparáveis. Como todos os homens do campo uruguaio, era reservado, silencioso, de maneiras sóbrias, contidas e delicadas. Nunca falava, mas uma ordem bastou-lhe. O meu tio disse-lhe: «O seu trabalho, Santa Rosa, é cuidar da menina, sem que ela se aperceba»; e o certo é que eu não dava por isso.
Cristina Peri Rossi, A insubmissa, 2026, pp. 18-19










