terça-feira, maio 19, 2026

«o rosto do pai», Patti Smith

 [terminado hoje de manhã, na ESPL do RTA]


RECORTE(s):      No dia da Independência, não me sentia bem. [...] Sentei-me durante horas a recuar dentro de mim, célula a célula, em busca dele, em busca dos lados de mim que viriam dele. Sem um verdadeiro desígnio ou previsão, mergulhei a fundo no cérebro do meu computador. Aconchegada por várias almofadas, procurei cruzar cada pista que recolhêramos acerca do meu pai biológico. À medida que a noite avançava, a cidade foi ficando estranhamente silenciosa, esvaziada de foliões. Começava a sentir-me cansada, mas o desejo de ver o rosto dele fazia-me continuar. E então, por volta das quatro da manhã, quando estava prestes a desistir, deparei-me com o PDF de um exemplar do jornal The Torretta Flyer, de Redondo Beach, na Califórnia. Na secção chamada «The Last Mission» estavam três soldados que tinham morrido. Sabia que era o meu pai quando lhe vi a cara, um jovem artilheiro de cabelos pretos ondulados e mãos nos bolsos em frente a um quartel caiado em Bari, Itália. Chamava-se Sidney. Revi-me, na minha juventude, naquela postura, naquele olhar insolente, e contemplei a imagem dele até à alvorada, desconhecido porém presente, tal como a lua nova apanhada nos corredores entre as margens da terra e do céu.

                                                 Patti Smith, Pão de Anjos,  2026, p. 269 - 270

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