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sábado, fevereiro 08, 2025

Maria Teresa Horta

 «Autobiografia», 2005, da Série publicada nas últimas páginas do «JL» - recolocada

[a Infância e a avó Camila, sempre...             ]

EXCERTO:

[...] «Vá Teresinha, que chegamos atrasadas» apressava-me, baixinha e delgada, olhar de violeta aceso, ao empurrar com os dedos afuselados, parecendo feitos de papel de seda, o portão de ferro forjado da Casa-Jardim, onde se reunia com fascinantes mulheres no início de algumas tardes. E apesar de curiosa e atenta, de imediato me resguardava na sua anca a defender-me, cara escondida no seu fato de seda com cheiro a alfazema.
     Mas logo elas me disputavam, pegando-me por baixo dos braços, a sentarem-me nos colos macios e perfumados ou nos joelhos luzidios das meias de seda, entoando com riso alto nas vozes ora estridentes ora suaves, «Ó menina, ó menina dos olhos azuis!» E eu, envergonhada, de imediato os fechava, sentindo-me um pouco tonta e perdida, mas sem susto; enquanto elas continuavam a passar-me de umas para as outras, até que por fim a minha avó me chamava para si, indagando: «Não falas à Maria?» E quando, anos mais tarde, a Maria Lamas me afirmou «Andei consigo ao colo», de imediato me lembrei do seu então jovem olhar entornado de mel, e do leve cheiro a pelica das luvas tiradas com vagares de cuidado, para me dar os rebuçados guardados para mim nos seus bolsos. [...]

domingo, janeiro 02, 2022

Leonor Xavier - «ABG» + [...]

 Leonor Xavier [...]: 

- republicação da «Autobiografia» («sumária», página final do «JL») que escreveu para o «JL», n.º  1029, em Março de 2010, ora na «Visão» - RECORTES:

[...] sou portuguesa em Portugal e brasileira no Brasil, tenho duas nacionalidades, dois passaportes, um bilhete de identidade e uma carteira e identidade, [...] na subtileza das minúsculas diferenças das designações, aqui e lá a língua portuguesa navega em duas pátrias faladas. [...]
Não me levo a sério, não falo de obra feita, não acredito na importância das funções, dos cargos ou dos títulos, [...] Eu bem conheço a doçura de certos dias de Lisboa, a nitidez das cores, a transparência do ar, em contraste com a brutalidade extrema da natureza no Rio de Janeiro, o sol violento de doer ou a chuva que paralisa a cidade, [...]
Assim introduzida, volto ao princípio da história, dizendo que nasci em Lisboa no mês de Junho de 1943. [...]

- artigo, de H. Vasconcelos, a 13 de Dez., no «Ípsilon»

sábado, novembro 21, 2020

Cruzeiro, por Seixas

«No dia seguinte ao nosso casamento», 1967

- o «JL» republicou a «ABG», de Cruzeiro Seixas, do n.º 929, de 10 de maio de 2006, AQUI; no final, uma pequena Lista de «Desaforismos»

RECORTES:

[...] Em África expus nos anos 53 e 55, sob a égide de Aimé Cesaire, levantando grande movimento de opinião. Desde 2001, pela mão amiga da poeta e escultora Isabel Meyrelles, centenas de poemas que me atafulhavam as gavetas têm sido publicados, estando para sair o 4.º volume. [...] Hoje toda a gente passa por faculdades, e o mundo infelizmente não melhorou; se tenho alguma vaidade, ela resume-se a não ter sequer frequentado o liceu. E reprovei em Desenho durante dois anos, na António Arroio. Tudo o que reivindico é um lugar entre o Facteur Cheval e a nossa Rosa Ramalho. Quero acrescentar ainda que devo aos meus pais, uma enormíssima noção de Liberdade e de amor. Foi isso de resto tudo o que deles herdei. A este país tenho que agradecer todo o lado escuro da minha experiência. [...]