quarta-feira, agosto 19, 2026

Que Nome é o seu? [«Escrito com sangue...»]

 - [leitura concluída ontem]

RECORTE(s):

     Será o próprio Micucci quem me dirá, em 1995, - [...] que a sua atenção foi atraída por uma anomalia, quase muda e invisível: uma bebé sentada numa manta, a palrar consigo mesma, no relvado junto à imponente entrada da  Villa Borghese, quando se chega da Piazzale Flaminio. A menina está sozinha na manta, no meio da relva, logo depois dos propileus. Não chora, mas é contudo uma imagem estranha.[...]
     O rapaz, surpreendido, sente um irreprimível desejo de ajudar. Olha em redor, não vê ninguém. Mas a bebé intercepta o seu olhar e estende os braços para ele. [...]
     O «patético ser minúsculo que grita a plenos pulmões» (Paese Sera, 25 de junho, [...] , «vestido com uns trapos» (de novo o Paese Sera, a 30 de junho) ou até «escondido numa pilha de trapos» (Il Messaggero, 30 de junho) encontrado no jardim da Villa Borghese, é Maria Grazia Greco. Eu, Maria Grazia Calandrone, hei-de nascer mais tarde.

       Maria Grazia Calandrone, Escrito com sangue na água - A minha mãe, um assunto dos jornais, [2022], 2026, pp. 173-174

quinta-feira, agosto 13, 2026

«do início do mundo» (Maria Grazia Calandrone)

- romance Biográfico (e Autob.º) centrado na Figura da Mãe OU de como a Ficção (transfigurando parcos documentos e, ou, testemunhos...) transforma a Ausência em Presença [e, como sempre, usando a Hipotipose*...]; alcançada a p. 164, de 275;

RECORTE(s):

     Leva mais de um mês até ela me ter de volta. Um mês que decorre, para Lucia e para mim, de um modo que decido não imaginar. Vimo-la* apenas a olhar pela janela no Viale Monza: inspirada por uma voz que vem do futuro - a minha -, o rosto apoiado nas mãos, a respiração irreprimível e em fúria imensa, um caleidoscópio de luz e carácter que a transforma. [...] 
    Num tão difícil contexto de ilegalidades e violências, não sei a que artes mágicas ou súplicas recorreu Lucia para me reconduzir a si, mas, a 1 de Dezembro, eu, minúscula, fui libertada e entregue à minha mãe, que «está temporariamente em Milão, na casa do seu tio, Giuseppe Di Pietro».

       Maria Grazia Calandrone, Escrito com sangue na água - A minha mãe, um assunto dos jornais, [2022], 2026, pp. 149-150

quinta-feira, agosto 06, 2026

«Eu e o Santa Rosa» (Cristina Peri Rossi)

 - [principal leitura do regresso ao GALH e ao «Agosto em Lx» - onde «cheira mal»; narrativa autobiográfica centrada na representação da Infância; alcançada a p. 153. de 203]; artigo de Isabel Lucas, no «Ípsilon» - «Porquê? A incómoda rebelião de uma criança»

RECORTE(s):

        Fui feliz naquela casa, sacudida de meia em meia hora pela passagem de um comboio de mercadorias, de um comboio de passageiros ou de um comboio expresso. Bastava perguntarem-me: sabia todos os horários, todos os destinos, e quando o frio ou a chuva ou a hora tardia me obrigavam a recolher-me, via passar os comboios através da janela. Os habitantes da povoação - não muito numerosos - habituaram-se a encontrar-me todos os dias à procura de ovos de avestruz ou a pastorear ovelhas, e perguntavam-me pelos horários dos comboios, [...] e mostraram-me que era preciso saber que tipo de comboio iria chegar para as [vias] abrir ou fechar, utilizando uma enorme máquina, em forma de leme [...] O meu maior sonho era ser capaz, sozinha, de pôr a máquina a funcionar, mas isso exigia a força de um homem muito grande e muito robusto, pelo que o meu querido tio encontrou um sistema para não me desiludir: um dos empregados da estação [...] movia a pesada correia de ferro pintada de preto, enquanto eu fazia girar o leme. Era o Santa Rosa e tornámo-nos inseparáveis. Como todos os homens do campo uruguaio, era reservado, silencioso, de maneiras sóbrias, contidas e delicadas. Nunca falava, mas uma ordem bastou-lhe. O meu tio disse-lhe: «O seu trabalho, Santa Rosa, é cuidar da menina, sem que ela se aperceba»; e o certo é que eu não dava por isso. 

                                          Cristina Peri Rossi, A insubmissa, 2026, pp. 18-19

[OUTRO]; [OUTRO];